Quem se beneficiaria?

(Nota do tradutor: artigo publicado em inglês em 02/12/2006 no blog The Last Psychiatrist (“O Último Psiquiatra”), atualmente inativo.)

(N.d.t.: capa de revista com foto de mulher jovem; nome traduzido “Psiquiatria”, matéria de capa “A Arte da Psicoterapia”, e trecho destacado “As consequências de terapia incompatível podem ser desastrosas.”.)

Nota a legenda embaixo. Essa é uma capa interessante. Ninguém jamais teria pensado em criar uma advertência similar sobre as consequências desastrosas de incompatibilidade com, digamos, Depakote. Nós sabemos que ele tem efeitos colaterais, mas nunca seria desastroso, certo?

(N.d.t.: valproato de sódio é usado pra tratar epilepsia, bipolaridade (mais diagnosticada em mulheres do que em homens), e enxaqueca, e causa náusea e sonolência em cerca de 20% dos pacientes, pode aumentar o risco de suicídio, e causa (em geral, não como exceção) atrofias no bebê se tomado por grávida.)

Mas por que terapia ruim seria desastrosa? Se a psiquiatria é tão baseada na biologia que um ambiente ruim não é a causa principal de problemas psicológicos, por que terapia ruim seria tão poderosa? Se má criação pelos pais não pode causar distúrbio de atenção, como pode terapia ruim piorar?

“A Arte da Psicoterapia”. Certo. Mas por que “ciência da farmacologia”? Porque nós dizemos “5HT2A” pra lá e pra cá como se soubéssemos do que falamos?

A frase seguinte diz “Selecionando pacientes pra psicoterapia psicodinâmica”. Mulheres brancas, jovens, e atraentes, talvez? Mas eles não quiseram dizer isso, claro. É só uma imagem.

Quase ninguém aprecia – e ninguém mesmo diz – o quão fundo os preconceitos penetram na psiquiatria. Não é coincidência que a psiquiatria foi misturada com assistência social, responsabilidade criminal, etc. O debate sobre “inato ou adquirido” é uma distração, um truque de mágica. Ele nos permite nunca ter que dizer o seguinte:

“Se eles são ricos e inteligentes, e podem entender como os comportamentos deles afetam os humores deles, nós podemos ajudar eles a se ajudarem. E eles não vão querer tomar remédios com efeitos colaterais mesmo.

Mas se eles são pobres ou de pouca inteligência, nós nunca vamos poder mudar o ambiente caótico deles, ou melhorar o autoconhecimento ou bom senso deles. No entanto, um fracasso social desse tamanho não pode ser encarado de frente; nós temos que deixar eles com a ilusão de que o comportamento não é inteiramente sujeito à vontade; de que as circunstâncias deles não dependem da atividade deles; de que os homens não são todos criados iguais. Porque sem a proteção que a psiquiatria oferece, eles vão exigir comunismo.”

(N.d.t.: “todos os homens são criados iguais” aparece na Declaração de Independência dos Estados Unidos.)

Conhecer uma só história

(Nota do tradutor: artigo publicado em inglês em 24/05/2006 no blog The Archdruid Report (“O Relatório do Arquidruida”, agora inativo) e traduzido com permissão do autor John Michael Greer a partir de cópia autorizada. O blog foi também publicado como série de livros – esse artigo aparece no primeiro; e os blogs atuais do autor são Ecosophia e Toward Ecosophy.)

O caminho druídico pode ser seguido em qualquer lugar, mas pra mim, ao menos, sempre é um pouco mais fácil num lugar aberto entre coisas verdes crescendo. Isso não exige um lugar selvagem; algumas das experiências mais transformativas do meu caminho druídico tiveram lugar numa semana de meditações ao amanhecer no Poço do cálice em Glastonbury, que não foi selvagem em qualquer ponto dos últimos cinco mil anos. Ainda assim, há muito a se dizer em favor do prado às margens de um córrego nas Cascatas no Oregon, com o sol começando a atravessar a neblina da manhã e os ruídos distantes do café da manhã no acampamento sobrepujados por canto de pássaros e água corrente. É onde eu estava, no meio da minha meditação do amanhecer, quando três frases se cochicharam no silêncio dentro da minha cabeça.

Conhecer muitas histórias é sabedoria.
Conhecer nenhuma história é ignorância.
Conhecer uma só história é morte.

Tenho pensado sobre essas frases no ano e meio desde aquela manhã, e quanto mais eu penso sobre elas mais elas me dizem sobre onde nós estamos hoje e como nós chegamos aqui.

Culturas tradicionais ao redor do mundo têm uma riqueza de histórias, e uma parte bem grande da educação nessas culturas consiste de compartilhar, aprender, e pensar sobre essas histórias. Elas não são apenas entretenimento. Histórias são provavelmente as mais antigas e mais importantes de todas as ferramentas humanas. Nós pensamos com histórias, encaixando a “grande e barulhenta confusão” do universo em torno de nós em padrões narrativos que fazem o mundo fazer sentido. Mesmo hoje, nós usamos histórias pra nos dizer quem nós somos, como é o mundo, e o que nós podemos e não podemos fazer com nossas vidas. É só que hoje em dia as histórias mudaram.

Uma das coisas mais chamativas entre histórias antigas, as histórias de culturas tradicionais, é que não há duas com a mesma moral. Pensa nos contos de fadas com os quais tu cresceu. Eles põe pessoas diferentes em situações diferentes com resultados muito diferentes. Às vezes violar uma proibição traz sucesso (“João e o Pé de Feijão”), às vezes traz desastre (“A Bela Adormecida”). Às vezes a vitória é do humilde e paciente (“Cinderela”), ás vezes daquele que se dispõe a tentar o impossível (“O Gato de Botas”). Há temas comuns nas histórias antigas, claro, mas infinitas variações sobre eles. Essas diferenças são uma fonte de grande poder. Se tu tem uma riqueza de histórias diferentes com que pensar, as chances são de que, pra quaisquer problemas que o mundo te apresente, tu vai conseguir achar padrões narrativos com os quais interpretar.

Ao longo dos séculos recentes, no entanto, a abordagem multi-narrativa das culturas tradicionais tem dado lugar, especialmente no Ocidente industrializado, a uma forma de pensar que privilegia uma história acima de todas as outras. Pensa em qualquer ideologia política ou religiosa atualmente popular, e tu provavelmente vai achar no centro dela a afirmação de que uma e apenas uma história explica tudo no mundo.

Pros cristãos fundamentalistas, é a história da Queda e da Redenção que termina com a Segunda Vinda de Cristo. Pros marxistas, é a história muito parecida do materialismo dialético, que termina com a ditadura do proletariado. Pra racionalistas, neoconservadores, a maioria dos cientistas, e boa quantidade de pessoas comuns no mundo desenvolvido, é a história do progresso. A esquerda e a direita políticas têm cada uma sua história, e assim por diante.

Um sintoma de conhecer uma só história é a certeza de que, qualquer que seja o problema que aparece, a solução é a mesma. Pros cristãos fundamentalistas, qualquer que seja o problema, a solução é se render a Jesus – ou, mais diretamente, ao cara que diz poder te dizer em quem Jesus quer que tu vote. Pros marxistas, a solução única pra todos os problemas é a revolução proletária. Pros neoconservadores, é o livre mercado. Pros cientistas, é mais pesquisa científica e educação. Pros democratas, é elger democratas; pros republicanos, é eleger republicanos.

O problema é que o universo é o que os ecologistas chamam de um sistema complexo. Num sistema complexo, realimentação e consequencias inesperadas fazem piada de tentativas simplistas de predizer efeitos a partir de causas, e nenhuma solução vai responder efetivamente a mais do que uma pequena porção dos desafios que o sistema oferece. Isso leva ao segundo sintoma de conhecer uma só história, que é fracassar repetidamente.

A história econômica recente oferece um bom exemplo. Nas últimas duas décadas, defensores do livre mercado no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional (FMI) têm empurrado um conjunto específico de reformas sobre governos e economias ao redor do mundo, insistindo que essas reformas são a única solução pra todo problema econômico. Em todo lugar onde elas foram completamente implementadas, o resultado foi desastre econômico e social – pensa na Ásia Oriental no fim da década de 1980, ou na Rússia e na América Latina na década de 1990 – e os países devastados por essas “reformas” voltaram à prosperidade só depois de as desfazer. Nada disso impediu os crentes no livre mercado de continuar avançando rumo à utopia imaginária que a história deles promete.

Se tu conhece muitas histórias, e sabe como pensar com elas, a complexidade do universo é menos problemática, porque tu tem uma chance muito maior de poder reconhecer qual história o universo parece estar seguindo, e agir de acordo. É interessante que se tu não conhece nenhuma história, tu ainda pode te virar; apesar de não ter os recursos da sabedoria das histórias à disposição, tu pode ser capaz de julgar a situação em si mesma e agir de acordo; tu tem flexibilidade.

Mas se tu conhece uma só história, e te dedica à idéia de que o mundo faz sentido se e somente se interpretado através do filtro daquela uma história, tu te prende a uma postura rígida sem opções de mudança. Na grande maioria dos casos, tu fracassa, porque a complexidade do universo é tal que nenhuma história específica é ferramenta útil pra entender mais do que uma parte bem pequena dele. Se tu pode reconhecer isso e largar a tua história, tu pode começar a aprender. Se tu tem o teu ego envolvido na idéia de ter a única história verdadeira, e tenta forçar o mundo a se encaixar na tua história ao invés de permitir que a tua história mude pra se encaixar no mundo, os resultados não vão ser bons.

Isso leva ao terceiro sintoma de conhecer uma só história, que é a raiva. O fracasso é um presente porque ele oferece a oportunidade de aprender, mas se o presente é emocionalmente difícil demais de aceitar, a saída fácil é se refugiar na raiva. Quando nós nos irritamos com gente que discorda de nós sobre política ou religião, eu venho pensando, o que realmente nos irrita é o fato de que a nossa uma história não se encaixa no universo todo sempre, e aqueles que discordam de nós apenas nos lembram desse fato desagradável.

Muitos comentaristas, e também muita gente comum, comentaram sobre o nível extraordinário de raiva que percorre os Estados Unidos hoje em dia. De entrevistas de rádio a debates políticos a conversas comuns, o diálogo deu lugar ao xingamento em todas as tendências políticas. É improvável ser uma coincidência isso ter acontecido ao longo de um quarto de século em que as grandes narrativas dos dois principais partidos políticos dos Estados Unidos fracassaram no teste da realidade. As décadas de 1960 e 1970 viram os democratas terem a chance de fazer as reformas que eles queriam; a de 1980 e a primeira do século 21 viram os republicanos terem a mesma oportunidade. Os dois partidos se viram frustrados por um universo que se recusou obstinadamente a cooperar com as suas histórias, e com infeliz frequência, gente dos dois lados buscou raiva e bodes expiatórios como formas de evitar repensar suas idéias.

Esse hábito de raiva não vai nos ajudar, ou a qualquer pessoa, conforme nós vamos rumo a um futuro que promete deixar a maioria das histórias familiares da nossa cultura em farrapos. Conforme nós encaramos as realidades indesejadas de exaustão de recursos, instabilidade ambiental, e a inevitável ressaca das décadas de bebedeira da nossa economia fantasiosa, nos prendermos a uma história específica que nos agrade pode ser reconfortante no curto prazo, mas leva a um beco sem saída familiar àqueles que estudam as histórias de civilizações extintas. Aprender outras histórias, e descobrir que é possível ver o mundo de mais do que uma só forma, é um caminho mais viável.

Psiquiatria é política

(Nota do tradutor: artigo publicado em inglês em 31/10/2006 no blog The Last Psychiatrist (“O Último Psiquiatra”), atualmente inativo.)

Psiquiatria é política, é política da forma como concorrer a cargo eletivo é política. Não é uma ciência, não é nem perto de ciência, é muito mais próxima da política.

Um médico faz um diagnóstico de um paciente e escreve no formulário. Se fosse ciência, eu deveria ser capaz de avaliar o paciente eu mesmo e obter o mesmo diagnóstico. Se é uma ciência mas não uma ciência exata, eu deveria ser capaz de obter o mesmo diagnóstico a maior parte do tempo, e nas vezes em que eu discordasse eu deveria poder ver porque a outra pessoa pensou da outra forma.

Mas se eu posso deduzir o diagnóstico sem enxergar o paciente – mas sabendo qual médico – então nós não temos ciência, nós temos política.

(N.d.t.: nos Estados Unidos nas últimas décadas, o Partido Democrático costuma “defender os pobres” e o Partido Republicano costuma “defender os empreendedores”.)

Se tu assiste o noticiário na TV sem som, e um senador republicano fala, e a legenda diz “Redução de Impostos pros Ricos?”, tu pode deduzir a posição dele. Na verdade, a questão em si não importa – o que importa é a afiliação partidária dele. Disso tudo segue. Nem sempre, certamente, mas um número suficiente de vezes pra tu não te dar o trabalho de aumentar o som da TV de volta.

A psiquiatria é da mesma forma. É facílimo determinar quem é considerado um “grande” psiquiatra, ou um “líder intelectual na psiquiatria” com base em quem faz a avaliação, e não em quaisquer méritos do psiquiatra em si. Num corredor Freud é exaltado; em outro vilanizado; Kay Redfield Jameson é o herói. Mas o valor deles, é claro, não tem qualquer dependência do que eles fizeram – depende de quem tu é. Ronald Reagan foi um deus ou um diabo dependendo de quem tu é, não de quem ele foi. Não parece importar que a maioria das pessoas não consegue dizer uma coisa específica que ele fez no cargo, sobre quais guerras e batalhas ele presidiu, o que ele fez ou não fez com os impostos. Ronald Reagan não é uma pessoa, é um símbolo.

É até possível pra mim deduzir quais remédios um paciente toma apenas com base em quem prescreve, e não nos sintomas do paciente. Importantemente, os remédios possíveis variam amplamente de médico pra médico; é errado pensar que a precisão das minhas deduções se baseia em qualquer lógica ou ciência fundamental pra escolha de remédios que deveria ser verdadeira pra todos os psiquiatras. É so o hábito regular, impensado dele. “Eu gosto do Risperdal.” Tu é burro? Tem internistas dizendo “eu gosto da insulina”?

Pra deixar claro: eu não falo de médicos tendo intuições únicas sobre qual remédio pode beneficiar um certo paciente. (“Eu acho que o Geodon pode funcionar muito bem aqui.”) Eu falo de cada médico ter um conjunto de drogas que prescreve com tal regularidade que eu posso adivinhar.


Isso vem de uma falta de apreciação do fato de que problemas psicológicos não são doenças genéticas, ou mesmo primariamente biológicas, ou mesmo, surpreendentemente, psicológicas. Eles são distúrbios sociais. Numa ilha deserta, ninguém pode dizer que tu é louco.

A evidência chave contra a minha posição é a biologia ser tão obviamente relevante. Há um componente hereditário em muitos problemas psicológicos; gêmeos criados separados frequentemente ainda têm taxas de concordância mais altas do que não-gêmeos. Mas isso deixa passar completamente a parte principal do problema. Considera a diabetes: ela é obviamente uma doença biológica, com um componente hereditário. Muito mais biológica do que qualquer problema psicológico, porque é possível indicar a biologia disfuncional na diabetes, mas não no transtorno bipolar. Mas a despeito dessa biologia, o ambiente é tão enormemente importante que frequentemente sobrepuja o componente biológico.

Nós podemos ainda considerar a verdadeira relevância da genética. Coisas que assumimos serem simples resultados genéticos frequentemente são mais complicadas do que parecem. A cor dos olhos é a introdução à genética mendeliana de todo mundo no sétimo ano. Mas – surpresa – não há gene para cor dos olhos. Há na verdade três genes para cor dos olhos, e a cor é determinada pela interação de todos os três. Então tu pode adivinhar cores dos olhos com base nos pais, mas não vai acertar sempre – porque cada um dá três genes diferentes.

Pode ser verdade que transtorno bipolar é genético. Talver fortemente genético, digamos 40%. Nós erramos porque consideramos os genes uma “variável fixa” – nós pensamos que só podemos afetar os outros 60% dos fatores. Certo? Errado; a genética não é fixa. Ter um gene pode ser uma variável fixa, mas se tu expressa esse gene ou não certamente é sujeito a controle externo. Considera o gênero sexual; absolutamente genético, certo? Não há muito que se possa fazer a respeito? Mas lagartos podem alterar o sexo dos filhos mudando a temperatura da incubação dos ovos. Pensa sobre isso. Agora, não é provável que a expressão dos genes pra bipolaridade tenha muito a ver com como tu é criado? E nós já sabemos que o ambiente afeta a expressão genética, então isso não é especulação.

Depois da sociedade protética

(Nota do tradutor: artigo publicado em inglês em 17/05/2006 no blog The Archdruid Report (“O Relatório do Arquidruida”, agora inativo) e traduzido com permissão do autor John Michael Greer a partir de cópia autorizada. O blog foi também publicado como série de livros – esse artigo aparece no primeiro; e os blogs atuais do autor são Ecosophia e Toward Ecosophy.)

Comumente se diz que generais se preparam para lutar a guerra anterior ao invés da próxima, e o mesmo merece ser dito ao menos igualmente sobre as sociedades em geral. Em toda época, a maioria das pessoas pensa poder contar com as condições atuais durarem pra sempre, e faz planos pro futuro assumindo que ele vai ser como o presente, só que mais. Instituições políticas, econômicas, e culturais fazem o mesmo, e infelizmente é comum tradições espirituais – que existem para indicar realidades inconvenientes – serem arrastadas pelo consenso. Então o futuro vem e faz algo diferente, e todos que pensaram que sabiam o que vinha acabam sentados nos destroços se perguntando o que houve.

(N.d.t.: nas cidades grandes dos Estados Unidos, as favelas ficam nos centros, e “subúrbio” significa casas grandes e carros.)

Profecias sobre o futuro feitas com base em opiniões convencionais não envelhecem bem. Quando eu crescia em subúrbio nos Estados Unidos na década de 1960, todos sabiam que em 2000 teríamos bases tripuladas na Lua e um hotel Hilton em órbita, enquanto aqui no chão nossas casas seriam movidas a energia nuclear literalmente barata demais pra valer a pena medir – tu apenas pagaria uma taxa mensal de conexão e poderia consumir quanto quisesse. Os centros urbanos decadentes seriam substituídos por imensas megaestruturas terraceadas ou as colossais arcologias de Paolo Soleri, enquanto o Sealab – alguém ainda lembra do Sealab? – seria o protótipo de cidades inteiras sob o mar. Era um baita mundo, mas de alguma forma se perdeu nas crises energéticas da década de 1970 e nós ao invés acabamos com carros esportivos, expansões urbanas como cânceres, e truques políticos de curto prazo que encobriram a diminuição das reservas de combustíveis fósseis por vinte anos e jogaram fora nossa melhor chance de passar pelo próximo século sem algum tipo de colapso.

Então pode não ser sem razão sugerir que as idéias correntes sobre pra onde nós vamos são tão enganadas quanto a utopia nuclear dos futuristas da década de 1960 se mostrou. Uma tendência frequentemente apontada como a onda do futuro parece sob risco particular desse tipo de fracasso – a substituição de habilidades humanas por dispositivos eletrônicos e mecânicos.

É uma tendência enorme, especialmente mas não só entre as classes médias dos países industrializados, que ditam as modas pro resto do planeta. Pensa em algo que pessoas costumavam fazer, e o vendedor no shopping provavelmente pode te vender algo pra fazer pra ti. Meu exemplo favorito é a máquina de fazer pão. Cem anos atrás quase toda família fazia o próprio pão; é uma tarefa simples e agradável que pode ser feita com tecnologia da Idade da Pedra. Agora, no entanto, tu pode gastar o quanto quiser numa máquina de balcão com botões e luzes que vai fazer pra ti. Similarmente, pessoas costumavam se entreter cantando e tocando instrumentos musicais, mas agora nós temos CDs e iPods pra isso. Elas costumavam se exercitar caminhando no parque, mas nós temos esteiras ergométricas pra isso. Ao invés de memórias, nós temos Palm Pilots; ao invés de imaginação, nós temos TVs, e assim por diante. No auge da tendência veio aquela figura bizarra do fim do século 20, o sedentário suburbano, cuja única atividade fora do horário de trabalho e trânsito era era clicar numa série de controles remotos sentado num sofá enquanto entregadores vinham à porta com um suprimento infindável de bens de consumo encomendados e pagos via Internet.

Efetivamente, as décadas de 1980 e 1990 testemunharam a criação de uma cultura protética. Uma prótese é um dispositivo artificial que substitui uma função humana, e elas são tecnologias valiosas pra aqueles que perderam o uso da função em questão. Se tu perdeu uma perna por acidente ou doença, por exemplo, uma perna artificial que te deixa andar de novo é algo muito bom de se ter. No entanto, quando uma sociedade começa a convencer pessoas a serrar fora as próprias pernas pra empresas poderem vender pernas artificiais, algo deu errado – e isso não fica longe da nossa situação atual.

Há ao menos dois problemas drásticos com a nossa cultura protética. O abandono das habilidades humanas em benefício de substitutos mecânicos tem impacto substancial em quem somos e quem podemos ser. Como E. M. Forster mostrou no seu perturbador conto “A Máquina Parou”, de 1909, é difícil imaginar que o potencial máximo de alguém como ser humano pode ser atingido num estilo de vida que consiste apenas de apertar botões. Por outro lado, distopias forsterescas sobre controles remotos têm mais ou menos a mesma chance daquelas cidades submarinas sobre as quais eu cresci lendo, porque a base do estilo de vida sedentário escorre pelo ralo enquanto eu escrevo essas palavras.

A força por trás da cultura protética das últimas décadas do século 20 foi o último grito da era do petróleo barato. As manipulações que afundaram o preço do petróleo no início da década de 1980 trouxeram energia mais barata do que em qualquer ponto anterior da história humana. Em vários pontos da década de 1990, o petróleo caiu a US$ 10,00/barril, o menor preço da história levando a inflação em conta. Como a maior fonte de energia do mundo industrial, e o “recurso-chave” que dava acesso a todas as outras formas de energia – as máquinas que mineram carvão, perfuram em busca de gás natural, constroem usinas hidrelétricas, e assim por diante são todas movidas a petróleo – o desabamento do preço do petróleo afundou os custos de energia em geral, e pôs as sociedades industriais do mundo numa situação sem precedente histórico: pela primeira (e provavelmente única) vez na história, era mais barato construir uma máquina para fazer quase qualquer coisa do que empregar um ser humano.

De algumas formas, claro, esse foi simplesmente o auge de um processo que começou com a Revolução Industrial, e acelerou com o nascimento da indústria petrolífera nos anos antes da Primeira Guerra Mundial. Esforços anteriores pra substituir habilidades humanas por máquinas tiveram que lidar com suprimentos de energia muito mais limitados e caros, que exigiram uma dependência de economias de escala; pão feito por máquinas, por exemplo, tinha que ser feito em grandes fábricas, ao invés de máquinas caseiras, pra manter custos ao alcance da maioria dos consumidores. O auge da era do petróleo barato deixou a energia tão abundante e barata, ao menos nos países industrializados mais privilegiados, que foi brevemente possível ignorar economias de escala e fazer de cada pessoa de classe média o centro de uma microfábrica projetada pra produzir, ou ao menos entregar, quaisquer bens e serviços desejados.

Tudo isso, no entanto, dependia de energia barata, e com a parada do crescimento da produção mundial de petróleo e a aproximação de declínios inevitáveis no futuro próximo, a cultura protética das décadas recentes se encaminha à lata de lixo da história.

Isso significa que visões correntes do futuro, e políticas baseadas nelas, precisam ser repensadas imediatamente. As décadas por vir terão muitas coisas atualmente feitas por máquinas devolvidas a seres humanos, pela razão pragmática de que vai ser outra vez mais barato alimentar, alojar, vestir, e treinar um ser humano pra fazer essas coisas do que fazer, abastecer, e manter uma máquina. Quantas coisas? Isso depende de quanta capacidade energética renovável é posta pra funcionar antes das taxas de produção de petróleo e gás natural escorregarem o pico de Hubbert abaixo. Num pior caso em que nada significativo é feito até as crises começarem – e nos Estados Unidos principalmente, estamos incomodamente perto desse caso agora – faltas de energia podem ser graves o suficiente pra tudo exceto os serviços mais essenciais ter que se virar com o esforço humano.

Em qualquer futuro realista, muitas técnicas antigas provavelmente serão importantes de novo. Profissões que envolvem fazer coisas úteis com mãos, cérebro, e ferramentas relativamente simples têm posições altas na minha lista de carreiras promissoras no século 21. Algumas artes completamente esquecidas podem ser ressuscitadas; a antiga arte da memória, um sistema renascentista de métodos mnemônicos que permitia arquivar e retirar enormes quantidades de informação, pode merecer nova atenção quando o custo energético de fazer e abastecer um Palm Pilot subir fora de vista.

A espiritualidade, por fim, tem relevância bastante mais óbvia no futuro pro qual vamos do que pareceu ter nas décadas recém-passadas. O tipo de profissões qualificadas que mencionei há pouco é aquele que trata o potencial humano como meio; a espiritualidade trata a realização do potencial humano como fim em si, a meta da vida humana. Num futuro em que a sociedade protética se dissolve em memória, formas de vida que focam nossa atenção em metas que podemos atingir sem bagunçar o planeta provavelmente vão se mostrar mais relevantes e sustentáveis do que um sistema de crenças que trata o acúmulo de bens de consumo como objetivo último da vida.