Psiquiatria é política

(Nota do tradutor: artigo publicado em inglês em 31/10/2006 no blog The Last Psychiatrist (“O Último Psiquiatra”), atualmente inativo.)

Psiquiatria é política, é política da forma como concorrer a cargo eletivo é política. Não é uma ciência, não é nem perto de ciência, é muito mais próxima da política.

Um médico faz um diagnóstico de um paciente e escreve no formulário. Se fosse ciência, eu deveria ser capaz de avaliar o paciente eu mesmo e obter o mesmo diagnóstico. Se é uma ciência mas não uma ciência exata, eu deveria ser capaz de obter o mesmo diagnóstico a maior parte do tempo, e nas vezes em que eu discordasse eu deveria poder ver porque a outra pessoa pensou da outra forma.

Mas se eu posso deduzir o diagnóstico sem enxergar o paciente – mas sabendo qual médico – então nós não temos ciência, nós temos política.

(N.d.t.: nos Estados Unidos nas últimas décadas, o Partido Democrático costuma “defender os pobres” e o Partido Republicano costuma “defender os empreendedores”.)

Se tu assiste o noticiário na TV sem som, e um senador republicano fala, e a legenda diz “Redução de Impostos pros Ricos?”, tu pode deduzir a posição dele. Na verdade, a questão em si não importa – o que importa é a afiliação partidária dele. Disso tudo segue. Nem sempre, certamente, mas um número suficiente de vezes pra tu não te dar o trabalho de aumentar o som da TV de volta.

A psiquiatria é da mesma forma. É facílimo determinar quem é considerado um “grande” psiquiatra, ou um “líder intelectual na psiquiatria” com base em quem faz a avaliação, e não em quaisquer méritos do psiquiatra em si. Num corredor Freud é exaltado; em outro vilanizado; Kay Redfield Jameson é o herói. Mas o valor deles, é claro, não tem qualquer dependência do que eles fizeram – depende de quem tu é. Ronald Reagan foi um deus ou um diabo dependendo de quem tu é, não de quem ele foi. Não parece importar que a maioria das pessoas não consegue dizer uma coisa específica que ele fez no cargo, sobre quais guerras e batalhas ele presidiu, o que ele fez ou não fez com os impostos. Ronald Reagan não é uma pessoa, é um símbolo.

É até possível pra mim deduzir quais remédios um paciente toma apenas com base em quem prescreve, e não nos sintomas do paciente. Importantemente, os remédios possíveis variam amplamente de médico pra médico; é errado pensar que a precisão das minhas deduções se baseia em qualquer lógica ou ciência fundamental pra escolha de remédios que deveria ser verdadeira pra todos os psiquiatras. É so o hábito regular, impensado dele. “Eu gosto do Risperdal.” Tu é burro? Tem internistas dizendo “eu gosto da insulina”?

Pra deixar claro: eu não falo de médicos tendo intuições únicas sobre qual remédio pode beneficiar um certo paciente. (“Eu acho que o Geodon pode funcionar muito bem aqui.”) Eu falo de cada médico ter um conjunto de drogas que prescreve com tal regularidade que eu posso adivinhar.


Isso vem de uma falta de apreciação do fato de que problemas psicológicos não são doenças genéticas, ou mesmo primariamente biológicas, ou mesmo, surpreendentemente, psicológicas. Eles são distúrbios sociais. Numa ilha deserta, ninguém pode dizer que tu é louco.

A evidência chave contra a minha posição é a biologia ser tão obviamente relevante. Há um componente hereditário em muitos problemas psicológicos; gêmeos criados separados frequentemente ainda têm taxas de concordância mais altas do que não-gêmeos. Mas isso deixa passar completamente a parte principal do problema. Considera a diabetes: ela é obviamente uma doença biológica, com um componente hereditário. Muito mais biológica do que qualquer problema psicológico, porque é possível indicar a biologia disfuncional na diabetes, mas não no transtorno bipolar. Mas a despeito dessa biologia, o ambiente é tão enormemente importante que frequentemente sobrepuja o componente biológico.

Nós podemos ainda considerar a verdadeira relevância da genética. Coisas que assumimos serem simples resultados genéticos frequentemente são mais complicadas do que parecem. A cor dos olhos é a introdução à genética mendeliana de todo mundo no sétimo ano. Mas – surpresa – não há gene para cor dos olhos. Há na verdade três genes para cor dos olhos, e a cor é determinada pela interação de todos os três. Então tu pode adivinhar cores dos olhos com base nos pais, mas não vai acertar sempre – porque cada um dá três genes diferentes.

Pode ser verdade que transtorno bipolar é genético. Talver fortemente genético, digamos 40%. Nós erramos porque consideramos os genes uma “variável fixa” – nós pensamos que só podemos afetar os outros 60% dos fatores. Certo? Errado; a genética não é fixa. Ter um gene pode ser uma variável fixa, mas se tu expressa esse gene ou não certamente é sujeito a controle externo. Considera o gênero sexual; absolutamente genético, certo? Não há muito que se possa fazer a respeito? Mas lagartos podem alterar o sexo dos filhos mudando a temperatura da incubação dos ovos. Pensa sobre isso. Agora, não é provável que a expressão dos genes pra bipolaridade tenha muito a ver com como tu é criado? E nós já sabemos que o ambiente afeta a expressão genética, então isso não é especulação.

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