Quando um dos pais do teu paciente é psiquiatra e paciente e tu só quer ir pra cama

Se tu quer testar a fé de um psiquiatra na “ciência” dele, apresenta a ele um dos dele.

Na minha carreira eu tratei umas dúzias de filhos/cônjuges de médicos, e mais ou menos uma dúzia de psiquiatras. Tratar pacientes com essas conexões é difícil, sendo honesto, por dois motivos: 1) muitos dos truques e distrações que nós usamos nos nossos pacientes normais não funcionam neles, porque eles conhecem o jogo. 2) nós sentimos pressão tremenda pra fazer um bom trabalho, porque nós sentimos que estamos sendo avaliados.

O resultado é que nós quase sempre fazemos um trabalho inferior. Deixando de lado a advertência contra tratar parentes, a realidade é que se eles soubessem o que fazer, eles não estariam indicando pra ti. E os truques e distrações são partes vitais da dança: eles dizem que tu na verdade não faz idéia como isso funciona, mas tu tem otimismo, então tu oferece um modelo pra pensar sobre como poderia funcionar. O modelo não precisa ser “verdadeiro” – ele precisa ser internamente consistente.

Mas a contratransferência pro paciente e a sua família é tão forte que nós fazemos coisas que não deveríamos, pensamos coisas que não deveríamos.

O tratamento é ainda mais difícil quando o pai/mãe/cônjuge psiquiatra do paciente também é paciente psiquiátrico em algum lugar. Se tu quer ver um departamento inteiro ter aneurismas ao mesmo tempo, diz “Eu tô recebendo X como paciente, e a mãe do(a) X é psiquiatra – e paciente na clínica pra bipolaridade!”

Em qualquer outro cenário, uma mãe na clínica pra bipolaridade sugeriria que o filho tem uma desordem similar, por ser parente de primeiro grau. Mas nesses casos, psiquiatras interpretam diferentemente: significa que a mãe enlouqueceu a criança. Foi culpa da mãe. Não da genética, ou biologia, ou mesmo ambiente comum: especificamente má criação. E não bipolaridade – desordem de personalidade.

Eu posso fazer uma afirmação sem nenhuma ressalva, sem exceção: nunca, nem uma vez, alguém ouvindo sobre esse cenário me disse algo como “bipolaridade em famílias instruídas é difícil de tratar”. Em todo caso, de novo, sem exceção, cada pessoa que ouviu sobre a situação disse exatamente a mesma coisa: “Meu Deus, ela é borderline, e a mãe é mais louca ainda.”

O que é interessante nisso, pra mim, são duas coisas. Primeiro, quão imediata, reflexiva, e confiante é essa avaliação de todo mundo – dada antes deles sequer verem o paciente, só ouvindo que a mãe de um paciente é psiquiatra. “A mãe é psiquiatra …” Bum. Caso encerrado. Pela janela vão diagnóstico, biologia, serotonina, efeito kindling, TSH, o que for – imediatamente se prevê que é desordem de personalidade devido a uma relação nociva entre mãe/pai e filho (ou entre cônjuges). Envolvida demais, envolvida de menos, abusiva, manipuladora, enfim.

Medicamentos são inevitavelmente considerados paliativos – com boa chance de serem trocados milhares de vezes ao longo da vida – ou símbolos pra manobras terapêuticas (“Eu vou te nutrir te dando clonazepam extra pros feriados, mas depois eu vou ser um pai-substituto disciplinado e reduzir em janeiro.”) Um histórico familiar de linfoma no sistema nervoso central é menos revelador que um pai psicanalista. O filho adulto é louco porque os pais deixaram louco.

Essa é a primeira coisa. A segunda é: eles quase sempre têm razão.

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