Depois da sociedade protética

(Nota do tradutor: artigo publicado em inglês em 17/05/2006 no blog The Archdruid Report (“O Relatório do Arquidruida”, agora inativo) e traduzido com permissão do autor John Michael Greer a partir de cópia autorizada. O blog foi também publicado como série de livros – esse artigo aparece no primeiro; e os blogs atuais do autor são Ecosophia e Toward Ecosophy.)

Comumente se diz que generais se preparam para lutar a guerra anterior ao invés da próxima, e o mesmo merece ser dito ao menos igualmente sobre as sociedades em geral. Em toda época, a maioria das pessoas pensa poder contar com as condições atuais durarem pra sempre, e faz planos pro futuro assumindo que ele vai ser como o presente, só que mais. Instituições políticas, econômicas, e culturais fazem o mesmo, e infelizmente é comum tradições espirituais – que existem para indicar realidades inconvenientes – serem arrastadas pelo consenso. Então o futuro vem e faz algo diferente, e todos que pensaram que sabiam o que vinha acabam sentados nos destroços se perguntando o que houve.

(N.d.t.: nas cidades grandes dos Estados Unidos, as favelas ficam nos centros, e “subúrbio” significa casas grandes e carros.)

Profecias sobre o futuro feitas com base em opiniões convencionais não envelhecem bem. Quando eu crescia em subúrbio nos Estados Unidos na década de 1960, todos sabiam que em 2000 teríamos bases tripuladas na Lua e um hotel Hilton em órbita, enquanto aqui no chão nossas casas seriam movidas a energia nuclear literalmente barata demais pra valer a pena medir – tu apenas pagaria uma taxa mensal de conexão e poderia consumir quanto quisesse. Os centros urbanos decadentes seriam substituídos por imensas megaestruturas terraceadas ou as colossais arcologias de Paolo Soleri, enquanto o Sealab – alguém ainda lembra do Sealab? – seria o protótipo de cidades inteiras sob o mar. Era um baita mundo, mas de alguma forma se perdeu nas crises energéticas da década de 1970 e nós ao invés acabamos com carros esportivos, expansões urbanas como cânceres, e truques políticos de curto prazo que encobriram a diminuição das reservas de combustíveis fósseis por vinte anos e jogaram fora nossa melhor chance de passar pelo próximo século sem algum tipo de colapso.

Então pode não ser sem razão sugerir que as idéias correntes sobre pra onde nós vamos são tão enganadas quanto a utopia nuclear dos futuristas da década de 1960 se mostrou. Uma tendência frequentemente apontada como a onda do futuro parece sob risco particular desse tipo de fracasso – a substituição de habilidades humanas por dispositivos eletrônicos e mecânicos.

É uma tendência enorme, especialmente mas não só entre as classes médias dos países industrializados, que ditam as modas pro resto do planeta. Pensa em algo que pessoas costumavam fazer, e o vendedor no shopping provavelmente pode te vender algo pra fazer pra ti. Meu exemplo favorito é a máquina de fazer pão. Cem anos atrás quase toda família fazia o próprio pão; é uma tarefa simples e agradável que pode ser feita com tecnologia da Idade da Pedra. Agora, no entanto, tu pode gastar o quanto quiser numa máquina de balcão com botões e luzes que vai fazer pra ti. Similarmente, pessoas costumavam se entreter cantando e tocando instrumentos musicais, mas agora nós temos CDs e iPods pra isso. Elas costumavam se exercitar caminhando no parque, mas nós temos esteiras ergométricas pra isso. Ao invés de memórias, nós temos Palm Pilots; ao invés de imaginação, nós temos TVs, e assim por diante. No auge da tendência veio aquela figura bizarra do fim do século 20, o sedentário suburbano, cuja única atividade fora do horário de trabalho e trânsito era era clicar numa série de controles remotos sentado num sofá enquanto entregadores vinham à porta com um suprimento infindável de bens de consumo encomendados e pagos via Internet.

Efetivamente, as décadas de 1980 e 1990 testemunharam a criação de uma cultura protética. Uma prótese é um dispositivo artificial que substitui uma função humana, e elas são tecnologias valiosas pra aqueles que perderam o uso da função em questão. Se tu perdeu uma perna por acidente ou doença, por exemplo, uma perna artificial que te deixa andar de novo é algo muito bom de se ter. No entanto, quando uma sociedade começa a convencer pessoas a serrar fora as próprias pernas pra empresas poderem vender pernas artificiais, algo deu errado – e isso não fica longe da nossa situação atual.

Há ao menos dois problemas drásticos com a nossa cultura protética. O abandono das habilidades humanas em benefício de substitutos mecânicos tem impacto substancial em quem somos e quem podemos ser. Como E. M. Forster mostrou no seu perturbador conto “A Máquina Parou”, de 1909, é difícil imaginar que o potencial máximo de alguém como ser humano pode ser atingido num estilo de vida que consiste apenas de apertar botões. Por outro lado, distopias forsterescas sobre controles remotos têm mais ou menos a mesma chance daquelas cidades submarinas sobre as quais eu cresci lendo, porque a base do estilo de vida sedentário escorre pelo ralo enquanto eu escrevo essas palavras.

A força por trás da cultura protética das últimas décadas do século 20 foi o último grito da era do petróleo barato. As manipulações que afundaram o preço do petróleo no início da década de 1980 trouxeram energia mais barata do que em qualquer ponto anterior da história humana. Em vários pontos da década de 1990, o petróleo caiu a US$ 10,00/barril, o menor preço da história levando a inflação em conta. Como a maior fonte de energia do mundo industrial, e o “recurso-chave” que dava acesso a todas as outras formas de energia – as máquinas que mineram carvão, perfuram em busca de gás natural, constroem usinas hidrelétricas, e assim por diante são todas movidas a petróleo – o desabamento do preço do petróleo afundou os custos de energia em geral, e pôs as sociedades industriais do mundo numa situação sem precedente histórico: pela primeira (e provavelmente única) vez na história, era mais barato construir uma máquina para fazer quase qualquer coisa do que empregar um ser humano.

De algumas formas, claro, esse foi simplesmente o auge de um processo que começou com a Revolução Industrial, e acelerou com o nascimento da indústria petrolífera nos anos antes da Primeira Guerra Mundial. Esforços anteriores pra substituir habilidades humanas por máquinas tiveram que lidar com suprimentos de energia muito mais limitados e caros, que exigiram uma dependência de economias de escala; pão feito por máquinas, por exemplo, tinha que ser feito em grandes fábricas, ao invés de máquinas caseiras, pra manter custos ao alcance da maioria dos consumidores. O auge da era do petróleo barato deixou a energia tão abundante e barata, ao menos nos países industrializados mais privilegiados, que foi brevemente possível ignorar economias de escala e fazer de cada pessoa de classe média o centro de uma microfábrica projetada pra produzir, ou ao menos entregar, quaisquer bens e serviços desejados.

Tudo isso, no entanto, dependia de energia barata, e com a parada do crescimento da produção mundial de petróleo e a aproximação de declínios inevitáveis no futuro próximo, a cultura protética das décadas recentes se encaminha à lata de lixo da história.

Isso significa que visões correntes do futuro, e políticas baseadas nelas, precisam ser repensadas imediatamente. As décadas por vir terão muitas coisas atualmente feitas por máquinas devolvidas a seres humanos, pela razão pragmática de que vai ser outra vez mais barato alimentar, alojar, vestir, e treinar um ser humano pra fazer essas coisas do que fazer, abastecer, e manter uma máquina. Quantas coisas? Isso depende de quanta capacidade energética renovável é posta pra funcionar antes das taxas de produção de petróleo e gás natural escorregarem o pico de Hubbert abaixo. Num pior caso em que nada significativo é feito até as crises começarem – e nos Estados Unidos principalmente, estamos incomodamente perto desse caso agora – faltas de energia podem ser graves o suficiente pra tudo exceto os serviços mais essenciais ter que se virar com o esforço humano.

Em qualquer futuro realista, muitas técnicas antigas provavelmente serão importantes de novo. Profissões que envolvem fazer coisas úteis com mãos, cérebro, e ferramentas relativamente simples têm posições altas na minha lista de carreiras promissoras no século 21. Algumas artes completamente esquecidas podem ser ressuscitadas; a antiga arte da memória, um sistema renascentista de métodos mnemônicos que permitia arquivar e retirar enormes quantidades de informação, pode merecer nova atenção quando o custo energético de fazer e abastecer um Palm Pilot subir fora de vista.

A espiritualidade, por fim, tem relevância bastante mais óbvia no futuro pro qual vamos do que pareceu ter nas décadas recém-passadas. O tipo de profissões qualificadas que mencionei há pouco é aquele que trata o potencial humano como meio; a espiritualidade trata a realização do potencial humano como fim em si, a meta da vida humana. Num futuro em que a sociedade protética se dissolve em memória, formas de vida que focam nossa atenção em metas que podemos atingir sem bagunçar o planeta provavelmente vão se mostrar mais relevantes e sustentáveis do que um sistema de crenças que trata o acúmulo de bens de consumo como objetivo último da vida.

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