Põe a culpa no Gilgamesh

(Nota do tradutor: artigo publicado em inglês em 07/06/2006 no blog The Archdruid Report (“O Relatório do Arquidruida”, agora inativo) e traduzido com permissão do autor John Michael Greer a partir de cópia autorizada. O blog foi também publicado como série de livros – esse artigo aparece no primeiro; e os blogs atuais do autor são Ecosophia e Toward Ecosophy.)

Tenho procurado por algumas semanas por uma forma de falar sobre alguns dos obstáculos principais no caminho de uma resposta construtiva à condição da sociedade industrial. É uma tarefa complicada, porque os obstáculos que tenho em mente têm raízes em muitas das idéias mais usadas pra explorar essa condição, e indicam direções que muitas pessoas acham intensamente desconfortáveis.

Então eu me alegrei quando um amigo me mandou um artigo intitulado “The Lost People” [“O Povo Perdido”], por um entrevistador de rádio e escritor chamado Thom Hartmann, que facilita bastante começar a conversa que, eu estou convencido, precisa acontecer na nossa sociedade. Eu duvido que o Hartmann ficaria feliz de ouvir isso, porque os argumentos que mais precisam ser feitos são exatamente os que ele não fez no artigo. O valor de “The Lost People” não é que ele oferece uma perspectiva útil sobre a nossa condição; ele não oferece. Pelo contrário, ele é útil porque mostra as atitudes que impedem os Estados Unidos modernos de reagir efetivamente a essa condição. Se há um elefante na nossa sala coletiva – e há – Hartmann pode ser aquele que dá um tapa no traseiro cinzento dele e diz “Isso não é um elefante!” tão alto, e tantas vezes, que eventualmente ninguém pode continuar fingindo que não há um elefante.

O artigo se apresenta como o que Hartmann pretendia dizer pra um grupo na sua maioria de anciões índios num festival da colheita na Nova Inglaterra há uns anos. Ele não teve chance de falar, o que provavelmente foi bom. Ele pretendia dizer aos anciões índios – membros do grupo em maior desvantagem econômica e social nos Estados Unidos modernos – que eles deviam ter pena dos brancos de classe média dos Estados Unidos, porque esses sofrem de privação muito maior do que os povos nativos.

Tu tem que seguir a lógica do Hartmann pra entender essa afirmação impressionante. De acordo com a versão dele da história, as culturas tribais antigas da Europa foram completamente destruídas por três ondas de conquistadores – primeiro, os celtas antigos (bem, na verdade os celtas não eram conquistadores e pertenciam eles mesmos a culturas tribais, mas deixa passar); segundo, o Império Romano; e terceiro e mais completamente, a Igreja Católica Romana. Supostamente nem um fiapo de folclore, nenhum fragmento das línguas, nenhum lugar sagrado, e nada de ensinamento espiritual das culturas tribais da Europa antiga sobreviveu a esse processo. Como resultado, de acordo com Hartmann, as culturas históricas e modernas da Europa não são culturas de verdade – elas são “culturas de dominação” sem valor, completamente corrompidas pelas ambições imperiais das classes governantes. Quanto à cultura tradicional dos Estados Unidos, Hartmann nem diz que ela existe.

O processo todo de declínio, de acordo com Hartmann, foi iniciado por Gilgamesh, rei de Ur (bem, na verdade, se é que ele viveu mesmo ele foi rei de Uruk, uma cidade-estado diferente, mas deixa passar), que inventou a primeira “cultura de dominação”, e, por uma espécie de teoria do dominó histórica, enlouqueceu o mundo ocidental inteiro. E é por isso, Hartmann conclui, que anciões índios não deveriam se ofender quando intrusos brancos dizem ter o direito de levar embora a espiritualidade nativa. Em primeiro lugar, os brancos devem ser perdoados por sofrerem privação muito maior que a daqueles que eles atacam, e, em segundo, uma vez que a cultura dos brancos dos Estados Unidos domina o planeta, depende dos brancos dos Estados Unidos salvar o mundo, e, se eles roubarem tradições nativas pra isso, bem, é pelo bem maior e por aí vai.

É um documento impressionante, de mais de uma forma. Apesar de usar termos de respeito às tradições nativas, é profundamente etnocêntrico; ele define a experiência dos brancos dos Estados Unidos como única e central à história do mundo, reduz o terreno conceitual disputado de um mundo multipolar à retórica típica da dominação global dos Estados Unidos, e consegue encaixar numa postura aparentemente não-discriminatória preconceitos familiares contra o catolicismo romano e contra pessoas do Oriente Médio. Apesar do argumento ser baseado na história, quase todos os “fatos” históricos que Hartmann cita pra apoiar o que diz passam longe da verdade. Ele comenta, por exemplo, que “todas exceto duas das línguas ‘européias modernas’ se baseiam na língua oficial de Roma – o latim”; bem, na verdade, línguas européias modernas não descendentes do latim incluem galês, irlandês, gaélico da Escócia, bretão, basco, inglês, holandês, frísio, dinamarquês, norueguês, sueco, finlandês, sámi, estoniano, letão, lituano, alemão, tcheco, eslovaco, húngaro, esloveno, croata, bósnio, sérvio, búlgaro, polonês, bielorrusso, ucraniano, russo, grego, albanês, e romani, só pra começar, o que é um pouco mais que duas. Mas deixemos passar isso, também, porque há algo muito mais complexo aqui do que simples má informação.

Há uma história, na verdade, por trás da versão da história do Hartmann. Pelo último meio século, mais ou menos, quando gente da classe média dos Estados Unidos disse não ter cultura, o que eles quiseram dizer foi que eles tentaram das as costas à cultura que eles herdaram, seja a que os avós deles trouxeram do país de origem ou a rica e vibrante cultura tradicional dos próprios Estados Unidos. Gente da classe média dos Estados Unidos, em outras palavras, se sente isolada de uma cultura tradicional viva porque eles mesmos se isolaram. Isso é parte do preço da mobilidade social. Dadas as circunstâncias, no entanto, a história do Hartmann soa um tanto como aquela piada antiga sobre o cara que matou o pai e a mãe, e então implorou a misericórdia do tribunal por ser órfão.

Ainda assim, o artigo do Hartmann não é piada; ele aposta alto, e aparentemente o livro dele por vir, Screwed: The Undeclared War Against the Middle Class [“Ferrados: a guerra não-declarada contra a classe média“] segue esse caminho. O que ele tenta justificar com a retórica e a história esfarrapada dele é o elefante na sala da nossa cultura hoje, a realidade do privilégio da classe média. Por critérios objetivos, lembra, membros da classe média dos Estados Unidos podem ser o grupo mais mimado de pessoas na história do planeta. Eles têm luxos e oportunidades com os quais imperadores romanos e aristocratas do ancien régime só podiam sonhar, e ganham na média mais dinheiro em um dia do que a maioria das pessoas na terra ganha em um ano. É claro que a maioria dos membros dessa classe privilegiada acredita que essa situação é inevitável e justa; os privilegiados sempre acreditam. Permanece o fato concreto de que numa civilização industrial pressionada pela diferença crescente entre a demanda ilimitada de bens e serviços, de um lado, e os recursos cada vez mais limitados do outro, o estilo de vida da classe média dos Estados Unidos e outros países industrializados fica entre os fatores mais potentes arrastando o mundo à ruína.

O problema que encaramos hoje é que não há riqueza real suficiente no mundo – recursos, bens, e serviços disponíveis suficientes – pra sustentar os membros das classes privilegiadas do mundo industrializado no estilo com o qual elas se acostumaram, e ao mesmo reconstruir completamente a civilização industrial pra permitir que ela se adapte à transição de crescimento exponencial movido a combustíveis fósseis para uma sociedade sustentável baseada em recursos renováveis. As crises políticas, culturais, e espirituais em tornos dos choques petrolíferos da década de 1970 tiveram o conflito entre essas duas escolhas como seu subtexto (geralmente) não-mencionado. O início da década de 1980 viu as classes médias nos Estados Unidos e vários outros países colocarem a manutenção do seu próprio privilégio decisivamente acima das necessidades do futuro. Essa escolha, não os crimes imaginários de Gilgamesh & Cia., criou os problemas mais urgentes de hoje. Aceitar e agir de acordo com esse conhecimento, no entanto, é ouvir as palavras que a estátua de Apolo disse pra Rainer Maria Rilke: Du muss dein leben andern, “Tu deve mudar tua vida.”

Eu suspeito que essa consciência tá na raiz da insistência do Hartmann de que as culturas tradicionais da Europa e dos Estados Unidos não são culturas de verdade, e dos esforços que tanta gente da classe média dos Estados Unidos faz hoje em dia pra ignorar as próprias raízes culturais aqui e em outros países. A cultura tradicional dos Estados Unidos em particular tem uma opinião péssima da noção de que, se tu for rico o bastante, tu não precisa te preocupar com o bem-estar dos teus vizinhos, a qualidade da tua comunidade, ou o destino do teu mundo. Como culturas tradicionais ao redor do mundo, ela evoluiu em interação íntima com os rígidos limites naturais de uma economia pré-industrial, e a insistência dela em valores centrais como frugalidade, disciplina, e responsabilidade mútua veio desse contexto. No futuro se erguendo diante de nós agora mesmo, esses valores vão ser cruciais de novo, mas pra pessoas acostumadas aos valores muito diferentes da classe média de hoje, eles representam desafios drásticos e exigem o abandono de muitos confortos e benefícios. É bem menos difícil pôr a culpa no Gilgamesh.

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