Adeus à Utopia

Nossa obsessão atual com o futuro é curiosa. Culturas anteriores tinham suas formas de tentar penetrar através do véu do tempo, claro; astrólogos e adivinhos tinham pelo menos tanto respeito em muitas outras sociedades quanto economistas, futuristas, e críticos sociais esperam na nossa. Nossos comentaristas modernos rejeitam essas artes antigas como inúteis porque elas confiavam na intuição de padrões míticos, ao invés da observação objetiva de fatos. Mas há uma profunda ironia nisso, porque quase todo pensamento moderno sobre o futuro é atrapalhado pela nossa obsessão com um par de narrativas rigidamente definidas – o mito do progresso de um lado, e o mito do apocalipse do outro – muito mais limitantes do que qualquer coisa que os adivinhos antigos e seus clientes teriam tolerado.

Eu argumentei em outro lugar que é impossivel entender os impactos do pico do petróleo, do aquecimento global, e de outras manifestações externas da crise da sociedade industrial enquanto nós estamos presos nesse modo de pensar. Continuar como estamos nao vai nos levar além e acima pra um futuro de Jornada nas Estrelas, isso é certo, mas também não tem grande chance de terminar no tipo de morte em massa súbita retratada pornograficamente em tanta literatura de sobrevivência. No entanto muitas pessoas só conseguem ver o futuro de uma ou da outra dessas formas.

(N.d.t.: “apokalypsis” significa “revelação” no grego koiné, da época da Bíblia.)

Essas duas visões do futuro, apesar de hoje em dia tomarem formas seculares na grande maioria das vezes, têm suas raízes na teologia apocalíptica cristã. Há pouco mais de quatro séculos atrás, na época da Reforma e da Contra-Reforma, o cristianismo em geral cedeu à filosofia racional-materialista e redefiniu as narrativas profundamente míticas da Bíblia como história secular. Até então, teólogos discutiam o que os eventos discutidos no Livro da Revelação significavam como analogias e símbolos místicos; depois, eles discutiram quando e como eles aconteceriam como eventos históricos no mundo cotidiano. Disso vieram duas escolas principais de pensamento. A posição pré-milenarista foi a de que Jesus voltaria e traria o Milênio, um período de mil anos em que cristãos governariam o mundo. Os pós-milenaristas argumentavam que os cristãos governariam o mundo por mil anos, e então Jesus voltaria.

A diferença pode parecer tão relevante quanto o número de anjos que podem dançar na cabeça do Jerry Falwell, mas implicações amplas se estendem de cada ponto de vista. Se os pós-milenaristas tiverem razão, a história fica do lado deles, porque eles são destinados a governar o mundo por mil anos de Jesus chegar aqui. Portanto pós-milenaristas acreditam que as coisas vão melhorar com o tempo até o Milênio chegar. Se os pré-milenaristas tiverem razão, por outro lado, a história fica do lado do diabo, porque vai ser preciso nada menos do que a intervenção pessoal de Jesus pra dar aos cristãos o seu reino global de mil anos. De acordo, pré-milenaristas acreditam que as coisas vão piorar com o tempo até, quando nada puder piorar, Jesus aparecer, dar um pau no diabo e seus lacaios, e trazer o Milênio.

Tira os termos teológicos desses dois pontos de vista e tu tem o mito do progresso e o mito do apocalipse nas suas formas atuais. Crentes no progresso argumentam que a civilização industrial é melhor do que qualquer outra na história, e suas dificuldades atuais vão ser resolvidas se nós simplesmente investirmos o bastante em pesquisa científica, ou tirar o governo do caminho da indústria, ou o que quer que seja que a história única deles apresenta como solução pra todos os problemas. Crentes no apocalipse argumentam que a civilização industrial é pior do que qualquer outra na história, e que suas dificuldades atuais vão terminar com uma catástrofe súbita que vai acabar com ela e trazer qualquer que seja o mundo melhor que a história única deles promete – um mundo melhor no qual eles vão inevitavelmente ter a posição privilegiada negada a eles nesse.

Essas duas narrativas míticas, em outras palavras, são mitos da Utopia. As duas prometem que o futuro vai trazer um mundo muito melhor do que o presente; os únicos pontos de desacordo são sobre como chegar lá, e o quanto a Utopia por vir se parece com a sociedade que temos agora. Portanto não é surpresa que crentes no progresso tendem a ser aqueles que sentem que se beneficiam com a ordem social atual, e crentes no apocalipse tendem a ser aqueles que se sentem marginalizados pela ordem social atual e excluídos dos seus benefícios. Em qualquer caso, a atração da Utopia é potente, e tem raízes profundas na nossa cultura e na nossa consciência coletiva.

É também um dos obstáculos primários no caminho de uma resposta construtiva à crise da sociedade industrial. A lição dos limites ao crescimento – uma lição que a maioria das pessoas vem tentando não aprender, com crescente desespero, desde o início da década de 1970 – é que a Idade da Exuberância chega ao fim e nada vai manter ou trazer ela de volta. O futuro não nos traz um mundo melhor. Ao invés disso nos traz um mundo de limites rígidos, oportunidades restritas, e expectativas reduzidas, no qual muitos dos nossos sonhos mais queridos vão ter que ser largados pelo futuro concebível, ou pra sempre. É um mundo no qual esperanças ainda podem ser realizadas, sonhos ainda podem ser perseguidos, e a experiência de ser humano ainda pode ser contemplada e celebrada, mas tudo isso vai ter que tomar lugar numa escala muito mais modesta do que a experiência do passado recente ou os sonhos utópicos de um futuro melhor nos prepararam pra considerar.

Durante a Idade da Exuberância, o pensamento utópico era adaptativo, usando o jargão ecológico: ele encorajava pessoas a pensar grande num tempo em que expansão imperial, progresso tecnológico, e disponibilidade cada vez maior de energia de combustíveis fósseis fez crescimento explosivo compensar. Conforme a Idade da Exuberância acaba em volta de nós, a equação se reverte. Num mundo de regionalização política e econômica, paralisia ou regressão tecnológica, e suprimentos em queda de todos os recursos não-renováveis, aqueles que seguirem a curva do declínio industrial vão ser tão bem sucedidos quanto aqueles que subiram nas ondas do crescimento industrial foram no passado. Já é hora, há algum tempo, de aprender de novo a pensar pequeno – e esse processo vai ser muito mais fácil se nós dermos adeus à Utopia e nos concentrarmos nas coisas que realmente poderemos alcançar nos duros limites de tempo e recursos que ainda temos.

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