Descendo a escada

Ao longo do mês passado, mais ou menos, eu falei sobre algumas das barreiras mentais que impedem pessoas de pensar claramente sobre o predicamento do sociedade industrial, e no processo esbocei, ao menos por implicação, a forma desse predicamento e as suas prováveis consequências. Nesse ponto pode ser útil desviar a conversa um pouco, dos obstáculos diante de nós pros potenciais de ação construtiva que ainda nos restam. É uma coisa anunciar o lobo à porta, mas outra bem diferente propor alguma forma de lidar com ele.

Às vezes é verdade que a única forma de lidar com um fato desconfortável é o caminho ainda mais desconfortável da aceitação, e em ao menos um sentido isso descreve a situação na qual estamos agora. Não há como lidar com o predicamento atual se “lidar com ele” quer dizer encontrar uma forma de impedir o fim da nossa civilização e a vinda da idade das trevas desindustrial que vem depois. Essa opção se foi por volta de 1980, quando os maiores países industrializados deram as suas costas coletivas a uma década de movimentos promissores rumo à sustentabilidade. Nesse ponto nós nos prendemos na armadilha prevista por Os Limites do Crescimento em 1972; nós não temos mais os recursos pra ao mesmo tempo atender às nossas necessidades atuais e nos prepararmos pro futuro. Até o momento o futuro tem pagado o pato – uma escolha que garante que não muito à frente, quando o futuro se tornar o presente, nós não vamos mais ter os recursos pra fazer muito do que quer que seja. É ai que o colapso catabólico começa mesmo, e a sociedade industrial começa a se consumir.

A história nos lembra, no entanto, que esse não é um processo rápido, ou linear. Civilizações caem por degraus, com períodos de crise e contração seguidos por períodos de estabilidade e recuperação parcial. A teoria do colapso catabólico explica isso como, basicamente, uma questão de oferta e procura; cada crise causa uma grande diminuição na quantidade de capital (físico, humano, social, e intelectual) que precisa ser mantido, e isso libera recursos suficientes pra permitir uma administração efetiva de crises, ao menos por um tempo. Essa mesma sequencia provavelmente vai se repetir várias vezes ao longo dos próximos séculos, conforme a civilização industrial tem seu próprio declínio e queda.

O declínio por degraus da civilização industrial (ou qualquer outra) pode ser entendido de outra forma, no entanto, e isso indica possibilidades de ação construtiva que ainda podem ser perseguidas, mesmo a essa altura do campeonato. Civilizações no auge tipicamente geram formas complexas e custosas de se fazer coisas, porque elas podem, e porque os benefícios sociais da extravagância superam os custos em recursos. A infraestrutura que serve a essas funções contém recursos substanciais que, numa época menos extravagante, podem ser recuperados e postos em usos mais prudentes. Conforme o que se considera alta tecnologia cai de uso, os recursos antes presos em equipamento de alta tecnologia se tornam matéria-prima pra tecnologias mais simples, que fazem uso mais eficiente de recursos. As pessoas se dão conta de que não se precisa de uma pirâmide pra enterrar um rei, ou banhos romanos pra lavar a pele, e logo em seguida os blocos de pedra da pirâmide e o encanamento dos banhos romanos são recuperados e usados pra propósitos mais imediatamente úteis.

Esse mesmo processo tem boa chance de ter um enorme papel no crepúsculo da era industrial. Algumas pessoas no movimento neoprimitivista de hoje disseram que conforme a civilização industrial decai, os sobreviventes vão descer de volta à idade da pedra, porque os últimos séculos de mineração febril tiraram os minérios do planeta que podiam ser processados por meios de baixa tecnologia. Se nós dependêssemos de minérios no solo, isso poderia ser verdade, mas nós não dependemos; as fontes mais ricas de metal no mundo hoje ficam acima do solo. O arranha-céu médio tem centenas de toneladas de ferro, aço, alumínio, e cobre, prontas pra serem cortadas fora por equipes de recuperação, levadas embora em carros-de-boi, e transformadas em facas, pás, arados, e outras coisas úteis. Os milhões de automóveis atualmente entupindo as estradas, lojas de carros usados, e ferros-velhos dos Estados Unidos são outra rica fonte de matérias-primas, e assim por diante.

Dessa forma, a extravagância material da era industrial pode fornecer uma reserva vital de recursos conforme nós descemos a curva do declínio. O fator limitante mais importante aqui é o conhecimento prático necessário pra transformar arranha-céus, carros, e os outros detritos do sistema industrial em bens úteis pro mundo desindustrial. Poucas pessoas têm esse conhecimento agora. O nosso sistema educacional, se a indústria escolar disfuncional dos Estados Unidos merece esse nome, abandonou as escolas vocacionais e os seus programas de treinamento prático décadas atrás. Numa época em que a criação e troca de bens e serviços reais se tornou secundária, enquanto a manipulação de pirâmides extravagantes de notas promissórias impagáveis se tornou o centro da economia de hoje, isso não é surpresa, mas é uma situação que tem que mudar pra qualquer coisa ser recuperada quando a primeira grande onde de crises chegar.

O progresso tecnológico tem uma característica curiosa relevante pra essa situação. Um dos livros infantis que eu li enquanto crescia usava a metáfora de uma escada pro progresso; esse degrau é uma carruagem, o próximo um coche, o próximo uma locomotiva, e em cima um carro. O problema com essa metáfora é que ela faz parecer que os degraus anteriores ainda existem, então se o de cima começar a rachar, tu pode descer um ou dois. Na maioria dos campos de progresso tecnológico, isso não é remotamente verdade. Quantas pessoas hoje, diante de uma série de problemas matemáticos complexos e sem poder usar um computador, poderiam puxar uma régua de cálculo ou sentar com uma tabela de logaritmos e resolver? Hoje em dia até estudantes do ensino fundamental na aula de matemática fazem cálculos em calculadoras de bolso.

O mesmo é verdade em quase qualquer outro ramo de tecnologia no qual tu pense. Cada nova geração de tecnologia é mais complexa do que a anterior, custa mais recursos pra construir e manter, e é mais interdependente com outras tecnologias. Conforme cada nova geração de tecnologia é adotada, a anterior se torna “obsoleta” – mesmo se a anterior fizer o serviço tão efetivamente quanto a nova – e é abandonada. Vinte anos depois nem engenheiros aposentados ainda lembram como a tecnologia anterior funcionava, muito menos como construir de novo do nada.

Efetivamente, conforme nós subimos de degrau em degrau na escada do progresso, nós chutamos cada degrau abaixo de nós ao chegarmos no próximo. Não tem problema nisso enquanto a escada segue pra cima pra sempre. Se tu chegar no topo da escada sem esperar, no entanto, tu tem boa chance de ficar balançando num só degrau sem outro apoio – e se tu não puder ficar nesse um degrau, por um motivo ou outro, é um longo caminho abaixo. Essa é a nossa situação agora. Conforme o fim dos comustíveis fósseis baratos nos empurra pra espiral de custos crescentes e recursos decrescentes que Os Limites do Crescimento previu há mais de trinta anos, o degrau da tecnologia eletrônica avançada, cara, e exigindo muita manutenção racha embaixo de nós.

Nos últimos anos, felizmente, pessoas têm começado a substituir alguns dos degraus abaixo. Eu conheço fazendeiros trabalhando que usam animais de tração ou os próprios músculos ao invés de tratores, e fertilizam o solo com adubo compostado e esterco ao invés de produtos químicos agrícolas à base de petróleo, ferreiros que fazem coisas extraordinárias usando só ferramentas manuais, e cervejeiros que fazem cerveja excelente com utensílios de cozinha comuns e matérias-primas tetravós conheciam bem. O degrau mais baixo de todos, fazer ferramentas lascando pedras, tem tido seu próprio renascimento modesto em anos recentes.

Isso é só um começo; ainda há muito a se fazer. Uma das maiores esperanças nesse lado do nosso predicamento, no entanto, é que esse trabalho pode ser feito com sucesso por indivíduos trabalhando sozinhos. Isso não é coincidência; são precisamente essas tecnologias que podem ser construídas, mantidas, e usadas por indivíduos que formaram o centro da economia nos dias antes da integração econômica sair de controle, e essas mesmas tecnologias – se recuperadas enquanto tempo e recursos ainda permitem isso – podem fazer uso dos detritos abundantes da civilização industrial, ajudar a amortecer a descida ao futuro desindustrial, e fornecer parte da base pras culturas sustentáveis que vão se erguer das ruínas da nossa época.

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